Perfil

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Francisco Carlos Carvalho de Melo

Professor universitário, ex-secretário municipal, ex-presidente da Câmara Municipal e vereador pela terceira vez, foi um moleque de rua que estudava e passava de ano. Nascido e criado no bairro Boa Vista, naquela época ainda estigmatizado por ter sido periferia da cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, presume que as dificuldades impostas pelo contexto sócio econômico da infância e adolescência, retardou a percepção sobre a importância de refletir sobre suas origens e história de vida. Fala da oportunidade de rever essas memórias com muita satisfação.

Na época de infância e adolescência, entre as décadas de 1970 e 1980, não havia requinte em colocar “Boa Vista” no endereço residencial. Nasceu em 10 de agosto de 1969 e lembra que na sua casa, costumavam indicar o bairro “Doze Anos”, aproveitando que alguns órgãos públicos faziam essa confusão. Já tinha mais de trinta anos de idade, quando redescobriu o Alto do Mocó, uma pequena elevação da Rua Francisco Bernardo, onde sua mãe reside há quase quarenta anos.

Antes de chegar ao Alto do Mocó, em 1981, havia passado por três residências alugadas, todas localizadas no mesmo bairro, que não tinha saneamento básico, ruas pavimentadas ou áreas públicas de esporte e lazer. Não registra memórias das duas primeiras casas, mas, lembra bem da terceira, na rua Lopes Trovão, em época de grandes privações, quando a sopa de feijão da tia-avó, Mariinha Mardoqueu, permitia uma noite de sono melhor. Casinha pequena, com banheiro instalado do lado de fora e algumas paredes construídas de pau a pique. Quando criança, preferia ignorar essa informação, afinal, o revestimento era bem feito e não havia necessidade de comentar com os colegas. Hoje, demonstra entender que aquele é o lugar de onde vem.

Havia várias escolas públicas nos arredores, mas, o posto de saúde mais próximo ficava no centro da cidade, acessível para as famílias asseguradas pelo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Em tempos nos quais seu pai tinha a carteira assinada, era possível receber atendimento médico pelo Serviço Social da Indústria (SESI) ou, depois, pelo Instituto de Previdência do Estado (IPE), depois que a mãe se tornou servidora do Governo do Estado do RN.

Com frequência, afirma que deve aos pais, entre outras coisas, o incentivo e o apoio para os estudos. Maria Salete Carvalho de Melo, formada pela escola normal e professora do antigo ensino primário, priorizava a compra do material escolar a cada início de ano letivo, em qualquer circunstância. Seu cuidado em orientar aos dois filhos na realização das atividades escolares era algo muito presente.

Luiz Carlos de Melo, seu pai, de pouca instrução formal, mas dado à leitura, adotava uma pedagogia diferente: “tem que passar de ano. Só tem essa obrigação”, dizia ele. Gostava de ler jornais e revistas em quadrinhos, hábito cultivado na década de 1960, quando trabalhou em uma banca de revistas de um tio, no centro da cidade. As melhores lembranças da infância e adolescência estão preenchidas pelo prazer de ler e colecionar revistas em quadrinhos e álbuns de figurinhas, hábitos substituídos por leitura técnica e científica, quando a realidade da vida já não permitia o antigo passa tempo. Era agradável sentar na calçada aos domingos, ao lado do seu irmão, Sydney Carlos de Melo, para ler as revistas adquiridas pelo pai, ao longo da semana.

A “necessidade é a mãe de todas as invenções”. O improviso e a criatividade ajudava a meninada a superar as restrições que lhes impediam adquirir os brinquedos da moda. O futebol era praticado o ano inteiro, com qualquer coisa que se parecesse com uma bola. Mas, havia algumas brincadeiras sazonais, como peão na época das chuvas e a pipa no segundo semestre, por exemplo.
Estudavam pela manhã e a meninada formava os times quando o sol começava a esfriar, por volta das 16h. Uma calçada servia de quadra e um portão se transformava em traves, até que o proprietário não reclamasse. Às vezes, colocavam as traves na rua, marcando a meta com pedaços de pau ou com as próprias chinelas japonesas, disputando espaço com os veículos e transeuntes ou em terrenos baldios. O barulho da meninada, a bola batendo nas portas, caindo nos telhados ou no quintal de alguma vizinha ranzinza, costumava render problemas.

Lembra o quanto ficou triste quando construíram no campinho do Juazeirinho. Desde então, os problemas mudaram. Antes, se xingamentos e ameaças de pancadaria não resolviam as desavenças, os mais afoitos partiam para uma briga na base de tapas e pontapés, às vezes com alguma solidariedade dos colegas. Apesar das desavenças, volta e meia, estavam todos brincando juntos novamente.

Hoje, não tem meninos jogando bola nas ruas. Não tem as reuniões de calçada para conversar ou planejar algumas malinações. Não tem menino subindo em árvores, muros ou até nos telhados das casas, apenas pelo desafio de fazê-lo. As esperadas colônias de férias e os banhos de piscinas aos domingos, para quem tinha a carteirinha do SESI. Na ausência da carteirinha, restava o risco de pular o muro, para garantir a diversão em dia de sol forte.

O ano de 1989 foi um ponto de virada. Tudo aconteceu muito rápido. Aos dezenove anos, iniciou o curso de graduação em Administração e começou uma vitoriosa carreira na Prefeitura Municipal de Mossoró (PMM). Nesse mesmo ano, se casou com Geilma Linhares Gomes de Melo, com quem tem dois filhos: Jônatas Gomes Carvalho de Melo e Daniel Gomes Carvalho de Melo, em uma união que soma 31 anos de convivência.

Aluno do curso de Administração de Empresas na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), curso de datilografia na Escola São Lázaro e alguns cursos no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e a fé sendo exercitada na Igreja Adventista do 7º Dia, estava em luta para conseguir um emprego e viabilizar a formação de uma família. Persistente e dedicado aos estudos e ao trabalho laborioso, obteve o bacharelado em Administração de Empresas (UERN, 1992), mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UERN, 2000) e doutor em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR, 2015), com concentração na área de estratégia. A educação liberta!

.Votou para presidente da República, na primeira eleição presidencial direta após o período de exceção, em 1989. No mesmo ano, Rosalba Ciarlini começava o primeiro de quatro mandatos como prefeita municipal, em uma vitoriosa carreira política. Servidor municipal lotado na Secretaria Municipal de Saúde, ocupou diversos cargos de chefia e assessoramento, exercendo o cargo de Secretário Municipal da Cidadania entre 2005 e 2012, durante as profícuas gestões da prefeita Fafá Rosado. A pasta, gestora das estratégias de políticas públicas nas áreas de educação, saúde, cultura, desenvolvimento social, esporte e lazer, gerenciava a metade do orçamento municipal.

Na condição de gestor público municipal, contribuiu para a implantação de vários conselhos municipais e diversos programas sociais nas áreas de educação, saúde, cultura e desenvolvimento social. Atento para os problemas urbanísticos da cidade de Mossoró/RN, coordenou a Conferência da Cidade em 2013 e, por ela, a elaboração do Plano Diretor, Código de Meio Ambiente de Mossoró/RN e do Código de Obras e Posturas. Contribuiu para a construção de dezessete escolas, oito unidades de saúde e outras dezenas de equipamentos sociais. Por sua proposição, a prefeita Fafá Rosado, atenta para a importância do investimento público em educação, apresentou e sancionou a Lei de Responsabilidade Educacional, uma iniciativa que recebeu um prêmio nacional de gestão educacional e o Programa Municipal de Incentivo à Educação Universitária (PRÓ-SUPERIOR), que contribuiu para a formação em nível superior de mais de dois mil jovens na cidade de Mossoró/RN.

Na UERN, ocupou os cargos de Superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas do Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional do Semiárido – CEMAD, Chefe do Departamento de Economia e Assessor de Planejamento. Com formação eclética, dedicou atenção para um diversificado conjunto de temas, iniciando a carreira docente na UERN em 1994, aos vinte e quatro anos, desenvolvendo experiência docente nos setores público e privado, nas áreas de economia e administração, com interesse em estratégia, planejamento, políticas públicas, desenvolvimento e sustentável.

Com grata satisfação, foi aceito nos quadros da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS), em 2018. A carreira de escritor e pesquisador é marcada pela publicação do livro “Breve – Passagens sobre o tempo, o vento, as pessoas e a cidade” (Editora Sarau da Letras, 2018) e artigos pelas revistas de Health Planning and Policy (Universidade de Oxford, 2019) e Saúde e Sociedade (Universidade de São Paulo – USP, 2020).

Eleito vereador em duas legislaturas, iniciadas nos anos de 2013 e 2017, especula que talvez tenha sido o primeiro presidente da Câmara Municipal declaradamente negro. Com os mandatos focados na área de educação, foi eleito primeiro secretário da Mesa diretora na primeira legislatura, ocupando de forma destacada a função de presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer nas duas legislaturas, na qual iniciou uma experiência inovadora de debates de temas relevantes para o desenvolvimento da educação e realização de discussões públicas sobre os projetos de lei em apreciação na casa legislativa.

Como legislador, coordenou os trabalhos de elaboração da Lei Orgânica do Município de Mossoró e propôs dezenas de projetos de leis, entre os quais: o Código Municipal de Proteção e Bem-estar Animal, o Sistema de Avaliação da Educação Municipal (SIAVI), a Política de Educação do Campo, o Programa Escola da Comunidade e idealizou Frente Parlamentar e Popular em Defesa da UERN que, entre outros feitos, realizou sabatinas com os candidatos ao Governo do Estado do RN, em 2018. O vereador Professor Francisco Carlos representa a CMM no Conselho Municipal de Educação, no Fórum Municipal de Educação e, por duas vezes, foi eleito para representar a comunidade no Conselho Universitário (CONSUNI), da UERN.

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